"Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim abolir, mas cumprir."
— Mateus 5,17 [1]
O versículo mais mal lido
Se existe um versículo bíblico que o adventismo repete com mais frequência do que qualquer outro, é este. E se existe um versículo cujo sentido o adventismo mais distorce, é o mesmo. Mateus 5,17 é, ao mesmo tempo, a fortaleza aparente e a ruína real do argumento sabatista.
O raciocínio adventista é direto: Jesus disse que não veio abolir a Lei. Logo, a Lei permanece intacta. Logo, o sábado permanece obrigatório. O argumento parece irrefutável na superfície. Mas ele se sustenta apenas enquanto não olhamos para o grego.
Dois verbos, dois mundos
O texto grego de Mateus 5,17 contém dois verbos que devem ser lidos em contraste:
Mē nomísēte hóti ēlthon katalŷsai tòn nómon ē toùs prophḗtas; ouk ēlthon katalŷsai allà plērō̂sai.
"Não penseis que vim abolir (καταλῦσαι, katalŷsai) a Lei ou os Profetas. Não vim abolir, mas cumprir (πληρῶσαι, plērō̂sai)."
O primeiro verbo, katalýō (καταλύω), significa demolir, destruir, derrubar. É o verbo usado para a destruição de edifícios (Mt 24,2: "não ficará pedra sobre pedra que não seja derrubada") e para a dissolução de assembleias. Designa um ato de violência, de aniquilação sem propósito, de destruição que não deixa nada no lugar. [2]
O segundo verbo, plēróō (πληρόω), é de natureza completamente diferente. Significa encher até a borda, completar, levar à plenitude, realizar o sentido pleno. É o verbo usado quando se diz que uma profecia foi "cumprida" (Mt 1,22: "Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta"). Quando uma profecia se cumpre, ela não é "mantida inalterada". Ela se realiza naquilo que anunciava. A profecia de Isaías sobre a virgem que conceberia não foi "conservada" por Maria; foi cumprida por Maria. A profecia deixou de ser expectativa e se tornou acontecimento. [3]
Ora, o contraste entre katalýō e plēróō é fundamental. Jesus não diz: "Não vim abolir, mas manter." Se quisesse dizer "manter", usaria tēréō (τηρέω), que significa guardar, observar, conservar intacto (o mesmo verbo de Jo 14,15: "Se me amais, guardareis meus mandamentos"). Ou usaria phylássō (φυλάσσω), que significa vigiar, proteger, preservar (o verbo de Lc 11,28: "Felizes os que ouvem a Palavra de Deus e a observam").
Mas Jesus não usa nenhum desses verbos. [4]
A escolha de plēróō sobre tēréō ou phylássō não é casual. Os outros dois verbos aparecem em Mateus (cf. Mt 19,17 e Mt 28,20 para tēréō; Mt 19,20 para phylássō), Mateus os conhecia e os usava. Quando escolheu plēróō em 5,17, fez escolha lexical técnica num campo semântico em que outras opções estavam disponíveis. O sentido escolhido é, portanto, o sentido pretendido.
Usa plēróō. E plēróō não significa conservar no estado atual. Significa levar ao estado pleno. A diferença é a que existe entre preservar uma semente no vidro e plantá-la na terra. A semente preservada permanece semente. A semente plantada se torna árvore. Nas duas situações, a semente não é "destruída". Mas em apenas uma delas ela é "cumprida".
A prova pelo absurdo
O argumento adventista, levado às suas consequências lógicas, se autodestrói. Se plēróō em Mateus 5,17 significa "manter inalterado", então toda a Lei mosaica permanece em vigor: não apenas o sábado, mas a circuncisão, os sacrifícios de animais, as leis de pureza ritual, as distinções alimentares, o sacerdócio levítico, o culto no Templo. Tudo.
Nenhum adventista aceita essa conclusão. O adventismo não pratica sacrifícios de animais, não exige circuncisão, não mantém sacerdócio levítico. Se pressionado, o adventista dirá que essas prescrições eram "cerimoniais" e foram superadas por Cristo. Mas se algumas partes da Lei foram superadas, então plēróō não pode significar "manter inalterado". Significa, como dissemos, "levar à plenitude", o que inclui tanto preservar o que é perene (a lei moral) quanto consumar o que é transitório (a lei cerimonial).
A distinção entre lei moral e lei cerimonial, que o adventismo aceita formalmente (cf. Tratado de Teologia Adventista, cap. 12, pp. 487-503, onde a tripartição moral/cerimonial/civil é explicitamente sustentada), é, na prática, suspensa quando se chega ao sábado. O sacrifício de animais é cerimonial e cessou (admitido em pp. 487-503). A circuncisão é cerimonial e cessou (admitido em pp. 487-503). Mas o sábado, embora apresente as mesmas marcas formais (vinculação à aliança sinaítica, sinal entre Deus e Israel, fundamentação dupla criação-libertação), é tratado como inteiramente moral. A inconsistência não é exegética. É doutrinária. Ali, de repente, a distinção desaparece, e o sábado é tratado como se fosse inteiramente moral e, portanto, imutável. Mas essa operação é seletiva. E a seletividade revela que o critério não é exegético, mas doutrinário: proteger o sábado a qualquer custo.
O que "cumprir" significa na prática
O Evangelho de Mateus é, em si, a melhor demonstração de como plēróō funciona. Ao longo de todo o texto, Mateus usa o verbo para indicar que os eventos da vida de Jesus são o cumprimento daquilo que o Antigo Testamento anunciava. "Tudo isso aconteceu para que se cumprisse (plērōthē) o que foi dito pelo profeta" é uma fórmula que aparece repetidamente (Mt 1,22; 2,15; 2,17; 2,23; 4,14; 8,17; 12,17; 13,35; 21,4; 27,9).
Em todos esses casos, o cumprimento não é repetição; é realização. A profecia não é "mantida" em estado de promessa eterna; é resolvida no acontecimento que ela anunciava. A lei não é "conservada" como código permanente; é transfigurada em Cristo, que é a realidade para a qual ela apontava.
O próprio Jesus, no Sermão da Montanha, demonstra o que significa "cumprir" a Lei. Logo após Mateus 5,17, Ele prossegue com seis antíteses ("ouvistes que foi dito… eu, porém, vos digo") nas quais não apenas repete a Lei, mas a aprofunda, a interioriza e a eleva. "Ouvistes que foi dito: não matarás. Eu, porém, vos digo: quem se encolerizar contra o seu irmão terá de prestar contas" (Mt 5,21-22). Isso não é manutenção. É elevação. É cumprimento.
A Lei dizia: não cometa adultério. Jesus diz: quem olhar com cobiça já adulterou no coração. A Lei dizia: olho por olho. Jesus diz: oferece a outra face. A Lei dizia: ama o teu próximo. Jesus diz: ama os teus inimigos.
Em cada antítese, o movimento é o mesmo: a Lei antiga não é destruída, mas transfigurada. O preceito exterior é absorvido por uma exigência interior mais profunda. A letra é levada ao espírito. A sombra é consumida pela luz. Isso é plēróō.
Paulo e o télos da Lei
O apóstolo Paulo confirma e expande essa leitura. Em Romanos 10,4, ele escreve: "Cristo é o fim (télos, τέλος) da Lei para a justificação de todo aquele que crê."
A palavra télos não significa "término" no sentido de encerramento vazio. Significa "finalidade alcançada, destino cumprido". É o mesmo sentido de quando dizemos que o télos de uma viagem é chegar ao destino. A viagem não é destruída quando chegamos; ela é completada. Mas ninguém fica viajando eternamente depois de chegar.
Cristo é o destino da Lei. A Lei caminhava para Ele. E quando Ele chegou, a Lei encontrou seu cumprimento. Os elementos morais permanecem, porque são inscritos na natureza humana e não dependem de uma aliança particular [5]. Os elementos cerimoniais cessam, porque a realidade que eles prefiguravam se fez presente [6]. O sábado, enquanto marcação cerimonial de um dia específico, pertence à segunda categoria.
A objeção adventista e sua fragilidade
O adventista bem informado responderá: "Mas o sábado não é cerimonial. É moral. Foi instituído na criação, antes de Israel, antes da Lei mosaica (Gn 2,2-3). Portanto, transcende a aliança mosaica e permanece obrigatório para toda a humanidade."
O argumento é elegante, mas enfrenta dois problemas sérios.
Primeiro: Gênesis 2,2-3 narra que Deus "descansou no sétimo dia de toda a obra que fizera" e que "abençoou o sétimo dia e o santificou". Mas o texto não registra um mandamento dirigido ao homem. Não há, em Gênesis, uma ordem para que Adão guarde o sábado. A primeira prescrição sabática como mandamento semanal dirigido a seres humanos aparece em Êxodo 16, no contexto da coleta do maná, cerca de 45 dias após a saída do Egito. O sábado como preceito é mosaico, mesmo que o repouso divino que lhe serve de fundamento seja pré-mosaico.
Segundo: mesmo que se aceite que o sábado possui um elemento pré-mosaico (o ritmo de trabalho e descanso como expressão da condição criatural), isso não significa que a forma específica do mandamento (guardar o sétimo dia, do pôr do sol de sexta ao pôr do sol de sábado) seja imutável. O Catecismo de Trento distingue com precisão: o dever moral de dedicar tempo a Deus é perene; a fixação de qual dia pertence à ordem cerimonial e pode ser modificada quando Deus inaugura uma nova aliança [7]. O conteúdo permanece; a moldura muda.
Mateus 5,18: "até que tudo se cumpra"
O versículo seguinte confirma a leitura. Jesus diz: "Em verdade vos digo, até que passem o céu e a terra, nem um jota nem um til serão tirados da Lei, até que tudo se cumpra (héōs àn pánta génētai, ἕως ἂν πάντα γένηται)."
A cláusula temporal é crucial: "até que tudo se cumpra". Jesus não diz "a Lei permanecerá para sempre em seu formato atual". Diz que permanecerá "até que tudo se cumpra". E o que é esse "tudo"? É a obra de Cristo: Sua vida, Sua morte, Sua ressurreição, Sua ascensão, o envio do Espírito. Quando esse "tudo" se cumpriu, a Lei alcançou seu télos. O que era moral permanece; o que era sombra encontra a luz.
Ler Mateus 5,18 como se dissesse "a Lei nunca muda" é ignorar a cláusula temporal que o próprio Jesus colocou. É como ler "ficarei aqui até que você volte" e concluir que a pessoa ficará ali para sempre, ignorando o "até que".
O cumpridor que “violava” a letra
Se “cumprir” significasse “guardar rigidamente cada prescrição da Lei de Moisés”, o próprio Jesus seria culpado de transgressão. E não uma vez. Várias.
Em Mateus 8,2-3, um leproso se aproxima de Jesus. A Lei é explícita: quem sofre de doença de pele infecciosa deve ser isolado, e tocá-lo torna a pessoa ritualmente impura (Lv 13,45-46; 14,1-32). Jesus estende a mão e toca o leproso. O verbo grego é hēpsato (ἥψατο), “tocou”, tempo aoristo, ação deliberada. Jesus não curou à distância. Tocou. Fez o que a Lei proibia. E ao tocar, não se contaminou: purificou o impuro.
Em Lucas 8,43-48, uma mulher com hemorragia crônica há doze anos toca a orla do manto de Jesus. Pela Lei, mulher com fluxo de sangue era ritualmente impura, e tudo o que ela tocava ficava impuro (Lv 15,25-27). Jesus não repreende a mulher. Não se declara impuro. Diz: “Tua fé te salvou; vai em paz.” O contágio opera ao contrário: em vez de a impureza contaminar Jesus, a santidade de Jesus purifica a mulher.
Esses episódios não são acidentes. São teologia encarnada. Mostram que “cumprir a Lei” não significa repetir servilmente cada cláusula ritual, mas realizar o fim para o qual a Lei foi dada: vida, purificação, restauração, comunhão com Deus. A Lei proibia tocar o leproso porque o leproso era impuro. Mas quando o Santo de Deus toca o impuro, o impuro se torna limpo. A finalidade da Lei (pureza) é cumprida, mas o meio (isolamento) é transcendido. É precisamente isso que plēróō significa: levar à plenitude, realizar o propósito, consumar o que era incompleto.
Se Jesus “cumpre” a Lei tocando leprosos e permitindo que mulheres impuras o toquem, então “cumprir” não pode significar “guardar literalmente cada preceito”. Significa que Ele é a realidade para a qual toda a Lei apontava. E quando a realidade chega, a sombra cede.
Conclusão: da semente à árvore
O verbo plēróō é a chave que abre o Sermão da Montanha, e com ele toda a questão da relação entre Antiga e Nova Aliança. Jesus não veio abolir a Lei. Isso é verdade. Mas também não veio conservá-la em formol. Veio cumpri-la: levá-la à plenitude, realizar o que ela anunciava, transformar a semente em árvore.
O sábado era semente. O domingo é árvore. A semente não foi destruída; foi plantada. E o que cresceu dela é algo maior, mais vivo, mais fecundo: o Dia do Senhor, memorial da Ressurreição, sacramento da Nova Criação.
Quem insiste em manter a semente no vidro, intocada, hermética, "preservada", está, sem perceber, impedindo-a de cumprir a sua vocação. Porque a vocação de toda semente é morrer para dar fruto (Jo 12,24). [8] E a vocação do sábado era apontar para Cristo. Quando Cristo chegou, o sábado cumpriu sua missão. E nós celebramos não a semente, mas o fruto.
No próximo estudo, examinaremos a palavra hebraica ʿolām e veremos por que "perpétuo" na Bíblia não significa o que o adventismo precisa que signifique.
Fontes e Referências
- Mateus 5,17. Plēróō (πληρόω): "cumprir, levar à plenitude". Cf. BDAG, s.v. πληρόω. ↩
- Katalýō (καταλύω): "abolir, destruir". Cf. BDAG. ↩
- Plēróō ocorre 86 vezes no NT. Fórmulas de cumprimento: Mt 1,22; 2,15.17.23; 4,14. ↩
- Tēréō (Jo 14,15) e phylássō (Lc 11,28): verbos de manutenção que Jesus não usou. ↩
- Mateus 22,37-40. Duplo mandamento do amor. Cf. CIC §2055. ↩
- Hebreus 8,13. Pepalaiōken: "tornou antiquada". A nova aliança não coexiste com a antiga. ↩
- Êxodo 31,16-17. ʿOlām (עוֹלָם): duração indefinida. Cf. artigo "ʿolām: quando perpétuo tem prazo". ↩
- João 12,24: "Se o grão de trigo não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto." ➜ Próximo estudo: ʿolām: quando "perpétuo" tem prazo ➜ Estudo anterior: Do Grande Desapontamento ao Dogma Sabatista ➜ Voltar ao Percurso Intermediário ↩