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Lei & Aliança · 16 minutos

ʿolām: quando "perpétuo" tem prazo

O sábado como aliança eterna e os limites do vocabulário hebraico

"Os israelitas guardarão o sábado, celebrando-o nas suas gerações como aliança perpétua."

— Êxodo 31,16 [1]

O argumento que parece irrefutável

De todos os argumentos adventistas em favor da obrigatoriedade eterna do sábado, este é talvez o mais instintivo: a própria Bíblia chama o sábado de "aliança perpétua" e de "sinal eterno" (Ex 31,16-17). Se Deus disse "perpétuo", quem é o homem para dizer que cessou? Se Deus disse "eterno", como pode a Igreja ensinar que foi superado?

O argumento tem força emocional. Mas tem uma fragilidade linguística que o derruba por dentro. Porque a palavra hebraica traduzida como "perpétuo" não significa o que o leitor moderno, em português, imagina que significa.

O que ʿolām realmente diz

A palavra hebraica é ʿolām (עוֹלָם) [2]. Ela aparece centenas de vezes no Antigo Testamento e é traduzida, conforme o contexto, como "perpétuo", "eterno", "para sempre", "desde tempos antigos" ou "pelos séculos". Mas o seu campo semântico é mais sutil do que qualquer dessas traduções sugere.

ʿolām não designa, necessariamente, uma eternidade absoluta no sentido filosófico (uma duração sem início e sem fim, fora do tempo). Designa uma duração indefinida, que se estende até onde a vista alcança, enquanto durar a ordem, o pacto ou a realidade a que se refere. É como dizer "para sempre" no sentido de "enquanto isto existir", não no sentido de "por toda a eternidade metafísica".

A Septuaginta grega, ao traduzir ʿolām, usou predominantemente aiōnios (αἰώνιος) [3], termo que carrega o mesmo campo semântico: algo pertencente a uma era (aiōn), a uma dispensação, a um período cuja duração é longa mas não necessariamente absoluta. Quando o Novo Testamento fala de "vida eterna" (zōē aiōnios), o contexto teológico (Deus como vivente eterno, ressurreição dos justos, escatologia final) garante que se trata de eternidade absoluta. Mas quando o Antigo Testamento usa ʿolām para prescrições rituais da Lei mosaica (circuncisão, holocaustos, sacerdócio, Páscoa, sábado), o contexto teológico é outro, a saber, prescrições inscritas numa aliança específica, com povo específico, em economia salvífica que aponta para realidade futura. O sentido lexical permanece (duração indefinida). O contexto teológico determina o alcance da indefinição. ʿolām aplicado a Deus é absoluto. ʿolām aplicado a prescrição ritual é coextensivo com a aliança que a sustenta.

A prova pelo próprio texto bíblico

Se ʿolām significasse "eternidade absoluta" em todos os casos, então várias outras prescrições da Antiga Aliança, igualmente chamadas de "perpétuas", continuariam obrigatórias até hoje. E nenhum cristão, incluindo os adventistas, aceita essa conclusão.

Vejamos os casos.

A circuncisão é chamada de "aliança perpétua" (berît ʿolām) em Gênesis 17,13: "Será circuncidado todo homem entre vós; e será por sinal de aliança entre mim e vós. Esta é a minha aliança, aliança perpétua." Se ʿolām significa "eterno sem exceção", a circuncisão [4] deveria continuar obrigatória para todo cristão. Mas não é. O Concílio de Jerusalém (At 15) dispensou os gentios da circuncisão. Paulo declara que "a circuncisão nada é, e a incircuncisão nada é" (1Cor 7,19). O "perpétuo" da circuncisão cessou com a Nova Aliança.

Os holocaustos diários são chamados de "holocausto perpétuo" (ʿolat tamîd) em Êxodo 29,42: "Será holocausto contínuo por vossas gerações." Se ʿolām (aqui na forma tamîd, "contínuo, perpétuo") significa "para toda a eternidade", os sacrifícios de animais deveriam continuar. Mas não continuam. A Carta aos Hebreus explica por quê: "É impossível que o sangue de touros e bodes tire os pecados" (Hb 10,4). O sacrifício de Cristo na cruz substituiu todos os holocaustos. O "perpétuo" cessou quando a realidade chegou.

O sacerdócio levítico é chamado de "sacerdócio perpétuo" (kehunnat ʿolām) em Êxodo 40,15: "A unção deles lhes conferirá um sacerdócio perpétuo, por todas as suas gerações." Se ʿolām significa "eterno", o sacerdócio levítico deveria existir até hoje. Mas não existe. A Carta aos Hebreus ensina que Cristo é sacerdote "segundo a ordem de Melquisedec, não segundo a ordem de Aarão" (Hb 7,11), e que "mudando-se o sacerdócio, necessariamente se faz também mudança de lei" (Hb 7,12). O sacerdócio "perpétuo" de Levi foi substituído pelo sacerdócio eterno de Cristo.

A festa da Páscoa é chamada de "instituição perpétua" (chuqqat ʿolām) em Êxodo 12,14: "Este dia vos será por memorial; celebrá-lo-eis como festa ao Senhor; instituição perpétua, celebrá-lo-eis." Se ʿolām exige perpetuidade absoluta, os cristãos deveriam celebrar a Páscoa judaica com o cordeiro imolado e as ervas amargas até o fim dos tempos. Mas não celebram. Celebram a Páscoa de Cristo, a Eucaristia, que é o cumprimento daquilo que o cordeiro pascal anunciava.

Em todos esses casos, o padrão é o mesmo: uma prescrição chamada de ʿolām foi superada pela Nova Aliança. O "perpétuo" era perpétuo dentro da Antiga Aliança, não perpétuo em sentido absoluto. A vigência terminava quando a realidade a que o sinal apontava se fazia presente.

A lógica que se aplica ao sábado

Se a circuncisão "perpétua" cessou, se os holocaustos "perpétuos" cessaram, se o sacerdócio "perpétuo" de Levi cessou, se a Páscoa "perpétua" foi transfigurada, por que o sábado "perpétuo" seria a única exceção?

A pergunta não tem resposta lógica dentro do sistema adventista. A única saída seria argumentar que o sábado pertence a uma categoria diferente das demais prescrições "perpétuas", isto é, que ele é lei moral e não cerimonial. Mas, como vimos no estudo sobre o Decálogo, o mandamento do sábado contém dois elementos: o núcleo moral (culto a Deus, santificação do tempo) e a moldura cerimonial (fixação do sétimo dia). O núcleo permanece; a moldura cede.

A Carta aos Hebreus é explícita sobre a relação entre as alianças: "Dizendo 'nova aliança', Deus tornou antiquada a primeira; e o que se torna antiquado e envelhece está prestes a desaparecer" (Hb 8,13) [5]. Se a Antiga Aliança como sistema envelheceu, todas as suas determinações cerimoniais envelheceram com ela. Não é possível extrair uma prescrição cerimonial da Antiga Aliança e mantê-la intacta dentro da Nova, como se fosse possível transplantar um órgão sem alterar o organismo.

ʿolām como duração alicial

Hebraístas como Ernst Jenni e Claus Westermann (Theological Lexicon of the Old Testament, s.v. עוֹלָם) descrevem o funcionamento de ʿolām em termos de duração condicionada pela ordem que a sustenta, o que a tradição escolástica chamou tecnicamente de duração alicial (do latim alicius, "pertencente a outro"): a duração do preceito é condicionada pela duração da aliança que o sustenta. O preceito é "perpétuo" enquanto a aliança estiver em vigor. Quando Deus inaugura uma nova aliança, os preceitos da anterior cumprem sua função e cedem lugar.

É por isso que o Catecismo de Trento pôde ensinar com serenidade que o mandamento do sábado contém um elemento mutável: não porque a Igreja se arroga poder sobre a Palavra de Deus, mas porque a própria economia da revelação opera assim. Deus não se contradiz quando inaugura a Nova Aliança. Ele cumpre o que prometeu. E o cumprimento, como vimos no estudo sobre plēróō, não é repetição; é plenitude.

A ironia do calendário (observação lateral)

Há uma ironia adicional sobre o sábado que merece menção, embora seja distinta do argumento central deste estudo e seja desenvolvida em mais detalhe em estudo posterior sobre o nome dos dias.

O sábado que os adventistas guardam hoje depende do calendário gregoriano, instituído pelo Papa Gregório XIII em 1582. Se o adventismo rejeita a autoridade da Igreja Católica, deveria, em princípio, questionar a validade do calendário que ela reformou. Mas sem o calendário gregoriano, não há certeza de que o sábado moderno corresponde ao sétimo dia original da criação.

O calendário judaico pré-exílico sofreu alterações ao longo dos séculos. O calendário romano, que os cristãos herdaram, foi reformado por Júlio César (46 a.C.) e depois por Gregório XIII (1582). Em nenhum desses momentos houve preocupação em garantir a continuidade exata do ciclo semanal desde Gênesis 2. A correspondência entre o sábado moderno e o shabbat original é presumida por tradição, não demonstrada por evidência.

Isso não invalida a prática judaica do sábado, que repousa sobre uma tradição milenar. Mas invalida a pretensão adventista de que guardar o sábado neste sétimo dia é condição de salvação, como se a correspondência exata com o dia da criação fosse uma certeza inabalável. Não é. É uma inferência razoável, mas não é prova.

Conclusão: o "para sempre" que encontrou seu destino

A palavra ʿolām não é uma armadilha linguística. É uma janela para a economia da salvação. Quando Deus diz que algo é "perpétuo", Ele não está dizendo que a forma externa do preceito jamais mudará. Está dizendo que o preceito vigora enquanto a aliança que o sustenta estiver em vigor, isto é, enquanto a realidade que ele anuncia ainda não tiver chegado.

A circuncisão era perpétua: até o Batismo. Os holocaustos eram perpétuos: até a Cruz. O sacerdócio de Levi era perpétuo: até Melquisedec-Cristo. A Páscoa era perpétua: até a Eucaristia. E o sábado era perpétuo: até o Dia do Senhor.

Em cada caso, o "para sempre" encontrou o seu destino. Não foi destruído. Foi cumprido. A semente não morre quando se torna árvore. Ela se realiza. E o ʿolām do sábado se realiza no descanso eterno que Cristo inaugura ao ressuscitar no primeiro dia da semana.

No próximo estudo, examinaremos a lei natural inscrita no coração humano e veremos por que o princípio moral do repouso não depende da fixação num dia específico da semana.

Fontes e Referências

  1. Êxodo 31,16-17. O sábado é berît ʿolām (בְּרִית עוֹלָם, "aliança perpétua") e ʾôt (אוֹת, "sinal") entre Deus e Israel.
  2. ʿOlām (עוֹלָם): "duração indefinida". Cf. JENNI & WESTERMANN. TLOT. Hendrickson, 1997, s.v. עוֹלָם.
  3. LXX traduz ʿolām por aiōnios (αἰώνιος, "pertencente a uma era"). Cf. BDAG, s.v. αἰώνιος.
  4. Outros preceitos ʿolām: circuncisão (Gn 17,13), holocaustos (Êx 29,42), sacerdócio levítico (Êx 40,15), pães da proposição (Lv 24,8). Todos cessaram com a Nova Aliança.
  5. Hebreus 8,13. Pepalaiōken: "tornou antiquada". A nova aliança não coexiste com a antiga.
  6. Batismo como cumprimento da circuncisão: Cl 2,11-12. Cf. CIC §1214. ➜ Próximo estudo: A Lei Escrita no CoraçãoEstudo anterior: πληρόω: o verbo que muda tudoVoltar ao Percurso Intermediário

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