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Sábado no NT · 20 minutos

O Senhor do Sábado

O que Jesus disse, o que Jesus fez, e o que isso significa

"O Filho do homem é Senhor do sábado."

— Lucas 6,5

A cena

É sábado. Os discípulos caminham por um campo de trigo. Sentem fome. Colhem espigas, esfregam-nas nas mãos e comem. Os fariseus os veem. E, como é próprio de quem vigia o cumprimento da regra em vez de contemplar a presença de Deus, protestam. "Por que fazeis o que não é permitido em dia de sábado?" (Lc 6,2).

A pergunta não é inocente. Para os fariseus, o sábado era a fronteira sagrada entre os fiéis e os infiéis, entre os puros e os impuros, entre os que pertenciam a Deus e os que estavam fora. Colher espigas no sábado não era uma infração menor. Era, no vocabulário deles, uma profanação.

Jesus poderia ter respondido de muitos modos. Poderia ter se desculpado. Poderia ter explicado que seus discípulos estavam com fome e que a exceção era justificável. Mas Ele não se desculpa. Não se justifica. Ele proclama.

"Nunca lestes o que fez Davi, quando teve fome, ele e os que estavam com ele? Como entrou na casa de Deus e tomou os pães da proposição, que não é lícito comer senão só aos sacerdotes, e os comeu, e deu também aos que estavam com ele?" E então, a sentença que muda tudo: "O Filho do homem é Senhor do sábado." (Lc 6,1-5) [1]

O peso de uma palavra

A palavra grega é Kyrios (Κύριος). Senhor. Soberano. Aquele que tem autoridade plena e irrestrita sobre a coisa de que se fala.

Não se trata de um título decorativo. No grego do Novo Testamento, Kyrios é o termo usado para traduzir o nome divino. Quando a Septuaginta verte o tetragrama YHWH, o nome impronunciável de Deus, usa Kyrios. [2] Quando Paulo confessa que "Jesus é Senhor" (Rm 10,9), é essa palavra que emprega. Quando Tomé, diante do Ressuscitado, exclama "Meu Senhor e meu Deus!" (Jo 20,28), é Kyrios que está em seus lábios.

Pois bem. Jesus diz que Ele é Kyrios do sábado. Que Ele tem sobre o sábado a mesma soberania que o Criador tem sobre a criação. Que o sábado não O governa; Ele é quem governa o sábado.

A consequência lógica é inevitável. Se Cristo é Senhor do sábado, pode mantê-lo, pode transformá-lo, pode levá-lo à plenitude. O sábado está sob a autoridade de Cristo, não acima dela.

Pode-se replicar que guardar o sábado é, justamente, obedecer ao Senhor do sábado. Mas o próprio Jesus indica o contrário ao curar em sábado, ao defender os discípulos que colhem espigas, ao omitir o mandamento sabático quando enumera o que conduz à vida eterna (Mt 19,16-21). Se o Senhor do sábado age livremente sobre o sábado em Sua vida pública, fazer da guarda do sábado condição inegociável de salvação é impor ao Cristo histórico um critério que Ele mesmo, na carne, não impôs aos Seus discípulos.

E qualquer doutrina que coloque a guarda do sábado como condição inegociável de salvação está, na prática, invertendo a hierarquia: está colocando o preceito acima da Pessoa, a sombra acima do Corpo, o sinal acima daquilo que o sinal significa.

O precedente de Davi

A referência a Davi não é casual. Jesus escolhe um episódio do Antigo Testamento (1Sm 21,1-6) em que a necessidade humana prevalece [3] sobre a letra do preceito ritual. Davi comeu os pães da proposição, que eram reservados exclusivamente aos sacerdotes. E não foi condenado por isso.

O que Jesus está fazendo é mostrar que a Lei nunca foi um absoluto rígido acima das pessoas. A Lei foi feita para o homem, não o homem para a Lei. Marcos preserva essa frase com toda a clareza: "O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado" (Mc 2,27). [4]

Mas Jesus vai além de Davi. Ele não está dizendo apenas que a necessidade justifica a exceção. Está dizendo algo muito mais profundo: que Ele mesmo é a razão pela qual o sábado existe. O sábado foi feito para apontar para Ele. E agora que Ele chegou, o sinal encontrou o seu destino.

É como se alguém passasse a vida toda seguindo uma placa de trânsito que aponta para uma cidade, e quando finalmente chegasse à cidade, se recusasse a entrar porque não quer abandonar a placa. O sábado é a placa. Cristo é a cidade.

Jesus cura em sábado

O episódio das espigas não é isolado. Lucas registra, no mesmo capítulo, outra cena reveladora. Jesus entra na sinagoga no sábado e encontra um homem com a mão direita paralisada. Os escribas e fariseus vigiam para ver se Ele curará em dia de sábado, "a fim de encontrar motivo para acusá-lo" (Lc 6,7).

Jesus sabe o que estão pensando. E não recua. Manda o homem se levantar e ficar de pé no meio da assembleia. Depois pergunta: "É lícito, no sábado, fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixá-la perecer?" (Lc 6,9). Ninguém responde. Jesus olha ao redor, com indignação e tristeza pela dureza de seus corações, e diz ao homem: "Estende a tua mão." Ele a estende. A mão fica restaurada.

O gesto é teológico. Jesus não cura em sábado apesar do sábado. Ele cura em sábado por causa do sábado. Porque o sábado, em seu sentido original, era sinal de vida, de liberdade, de restauração. Era memorial da criação e da libertação do Egito. E o que Jesus faz ao curar no sábado é restaurar o sábado ao seu significado verdadeiro: não uma lei que paralisa, mas um dom que liberta.

Nas mãos dos legalistas, porém, o sábado havia se transformado em instrumento de condenação. O que era dom para a vida tornara-se lei para acusar. O que era descanso tornara-se fardo. E é exatamente esse fardo que Jesus denuncia quando diz, em outra ocasião: "Ai de vós, que impondes aos homens fardos insuportáveis, e vós mesmos não tocais esses fardos com um só dos vossos dedos!" (Lc 11,46).

Lucas registra mais duas curas sabáticas que confirmam o mesmo padrão. Em Lucas 13,10-16, Jesus encontra na sinagoga uma mulher encurvada havia dezoito anos, "presa por um espírito de enfermidade". Ele a chama, impõe as mãos e a liberta. O chefe da sinagoga protesta: "Há seis dias em que se deve trabalhar; vinde curar-vos nesses." A resposta de Jesus é cortante: "Hipócritas! Cada um de vós não solta do cocho, em dia de sábado, o seu boi ou o seu jumento, para levá-lo a beber? E esta filha de Abraão, que Satanás manteve presa durante dezoito anos, não devia ser libertada deste cativeiro em dia de sábado?" A lógica é devastadora: se um animal merece alívio no sábado, quanto mais uma filha de Abraão. O sábado é dia de libertação, não de prisão. E quem o transforma em pretexto para manter alguém cativo inverte o sentido que Deus lhe deu.

Em Lucas 14,1-6, Jesus cura um hidrópico na casa de um fariseu, também no sábado. Antes de curar, Ele pergunta: "É lícito curar no sábado, ou não?" Silêncio. Após a cura, confronta: "Qual de vós, se o filho ou o boi cair num poço em dia de sábado, não o tirará logo?" Novo silêncio. A dupla pergunta sem resposta revela o embaraço dos fariseus: eles sabem que o bom senso exige a cura, mas admiti-lo significaria reconhecer que o sábado está subordinado ao bem da pessoa, e não o contrário. Cada cura sabática de Jesus é uma demonstração prática de que Ele é Senhor do sábado, não guardião de um regulamento.

O Pai que nunca descansa

Mas as curas no sábado revelam algo ainda mais profundo do que a soberania de Cristo sobre o preceito. Revelam a própria natureza de Deus em relação ao tempo.

Em João 5,16-17, depois de curar o paralítico no tanque de Betesda em dia de sábado, Jesus responde aos judeus que o perseguem: “Meu Pai trabalha até agora, e eu também trabalho” [5]. A frase é uma bomba teológica. Jesus está dizendo que o Pai jamais observou o sábado de Israel. Deus não cessa de sustentar a criação, de dar vida, de manter o universo no ser a cada instante, inclusive no sábado. Se o Pai parasse de operar por um único segundo, toda a criação deixaria de existir. O repouso de Gênesis 2,2 é cessação do ato criador de novas espécies, não inatividade. O Pai trabalha todos os dias, inclusive no sétimo, porque é Deus. E o Filho, sendo Deus com o Pai, igualmente.

Ora, se o próprio Deus não observa o sábado semanal de Israel, porque não pode deixar de agir sem que o cosmos se dissolva, então o sábado israelita é, por definição, preceito para criaturas, não para o Criador. E quando o adventismo afirma que o sábado é lei eterna e universal, está afirmando, sem perceber, que Deus mesmo viola sua própria lei ao sustentar a criação no sétimo dia. A consequência é absurda, o que demonstra que a premissa está errada. O sábado semanal não é lei universal. É aliança com Israel. O Pai e o Filho estão acima dele porque são o Senhor dele.

Os judeus entenderam perfeitamente o alcance da declaração. João nota que, a partir desse momento, “os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque não somente violava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus” (Jo 5,18). A reivindicação sabática e a reivindicação divina são, para João, faces da mesma moeda. Quem é Senhor do sábado é Deus. E quem é Deus não está sujeito ao sábado.

“Orai para que vossa fuga não seja no sábado”

Há ainda um texto que os sabatistas consideram inexpugnável: Mateus 24,20 [6]. Jesus, falando sobre a destruição de Jerusalém, diz: “Orai para que a vossa fuga não se dê no inverno nem no sábado.” A leitura adventista é direta: se Jesus manda orar para não fugir no sábado, é porque o sábado ainda será obrigatório quando esses eventos acontecerem.

O problema é que o contexto inteiro de Mateus 24 desmente essa leitura. A sequência começa em Mateus 23,37-39, onde Jesus lamenta sobre Jerusalém e anuncia que “a vossa casa vos ficará deserta”. Em 24,1-2, saindo do Templo, profetiza: “Não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derribada.” Os discípulos perguntam quando isso acontecerá (24,3). E tudo o que se segue, até o versículo 34, descreve eventos que ocorreriam naquela geração: guerras, fomes, falsos profetas, a “abominação da desolação” cercando Jerusalém, a fuga dos que estão na Judeia.

Jesus está falando a judeus que viviam sob a Lei, numa cidade cujas portas se fechavam no sábado. Fugir no sábado seria praticamente impossível: as portas da cidade estavam trancadas, o deslocamento era restrito, e a comunidade vigiava qualquer movimento. A referência ao sábado é prática, não doutrinária. Jesus não está legislando sobre o quarto mandamento. Está dizendo: orai para que as circunstâncias da fuga sejam as mais favoráveis possíveis.

E o versículo 34 confirma o horizonte temporal: “Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas essas coisas aconteçam.” Tudo se cumpriu em 70 d.C., quando Tito destruiu Jerusalém e o Templo. O historiador Eusébio de Cesareia registra que os cristãos de Jerusalém, obedecendo a essa profecia, fugiram para Pela antes do cerco. A passagem não prova que o sábado é obrigatório até o fim do mundo. Prova que Jesus conhecia as condições práticas da Jerusalém do primeiro século e cuidava dos seus.

O mandamento que Jesus não citou

Há um argumento que opera pelo silêncio, e o silêncio, quando vem de Cristo, é tão eloquente quanto a palavra. Em Mateus 19,16-21, o jovem rico aproxima-se de Jesus e pergunta: "Mestre, que devo fazer de bom para alcançar a vida eterna?" Jesus responde: "Se queres entrar na vida, observa os mandamentos." O jovem insiste: "Quais?" E então Jesus enumera: "Não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não levantarás falso testemunho; honra teu pai e tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo."

A lista é precisa. E a ausência é gritante: o sábado não aparece. Cristo percorre os mandamentos centrais da Lei moral, aqueles que dizem respeito à relação com o próximo e com Deus, mas omite justamente o preceito sabático. Se o sábado fosse critério de salvação, essa omissão seria impensável. Jesus não se esqueceu. Ele escolheu. [7]

Lucas 18,18-22 narra a mesma cena com variações mínimas: "Não cometerás adultério, não matarás, não roubarás, não levantarás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe." Mais uma vez, o sábado está ausente. E a resposta final de Jesus, em ambos os relatos, desloca o centro da questão: não se trata de guardar mais um dia, mas de seguir a Cristo com totalidade. "Vende tudo o que tens, distribui-o aos pobres e terás um tesouro nos céus; depois, vem e segue-me" (Lc 18,22). O convite não é ao calendário, mas à Pessoa.

Ora, a teologia adventista coloca o sábado no centro absoluto da fidelidade cristã: selo de Deus, marca do remanescente, linha divisória entre salvos e perdidos. Se essa teologia estivesse correta, Jesus teria cometido um erro pastoral catastrófico ao omitir o sábado diante de um homem que Lhe perguntava, com sinceridade, como alcançar a vida eterna. Mas Jesus não erra. Se omitiu o sábado, é porque o sábado não pertence mais ao núcleo da moral evangélica. O descanso sabático, memorial da antiga criação, cede lugar ao seguimento radical de Cristo, que inaugura a nova criação. O verdadeiro repouso não é semanal: é eterno. Jesus não manda "guardar o sábado". Manda: "Segue-me."

E quando, em outra ocasião, lhe perguntam qual é o maior mandamento de todos, Sua resposta é o amor a Deus e ao próximo (Mt 22,37-40). "Destes dois mandamentos depende toda a Lei e os Profetas." Toda a Lei. Todos os Profetas. O sábado não é mencionado, porque o sábado já está contido, superado e plenificado no amor a Deus.

"Meu Pai trabalha até agora, e eu também trabalho"

O Evangelho de João acrescenta uma dimensão que aprofunda todo o quadro. Em João 5,16-17, após curar um paralítico no sábado, Jesus é perseguido pelos judeus. E Sua resposta é surpreendente: "Meu Pai trabalha até agora, e eu também trabalho." [8]

A afirmação é escandalosa para ouvidos judaicos, e por duas razões. Primeiro, porque Jesus chama Deus de "Meu Pai" em sentido próprio, reivindicando uma relação filial única. Segundo, porque afirma que o Pai trabalha no sábado.

Ora, se Deus repousa no sétimo dia (Gn 2,2), como pode Jesus dizer que o Pai trabalha "até agora"? Porque o repouso de Deus na criação não é inatividade. É plenitude. E quando Deus se encarna em Cristo e vem operar no mundo, o descanso cerimonial cessa, pois o próprio Deus está em meio aos homens, realizando a obra da nova criação.

O sábado perde seu sentido ritual quando o Senhor do sábado está presente. O sinal se dissolve na realidade. O mestre não precisa mais apontar para a porta quando o dono da casa já entrou.

O último sábado e o primeiro domingo

Os Evangelhos narram, com uma convergência que impressiona, o encerramento do sábado e a inauguração do domingo.

No sábado, Jesus repousa no túmulo. É o grande shabbat do Filho de Deus: o descanso da carne entregue à morte. O sábado de Cristo no sepulcro encerra a ordem antiga, cumprindo o mandamento mosaico em sua raiz. Deus repousou no sétimo dia ao completar a criação (Gn 2,2); agora, o Filho repousa no sétimo dia ao completar a redenção.

Mas esse repouso é apenas prelúdio. Porque ao amanhecer do primeiro dia da semana, a pedra está removida e o sepulcro, vazio. Mateus escreve: "Depois do sábado, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro" (Mt 28,1). Marcos ecoa: "Passado o sábado, bem cedo, no primeiro dia da semana" (Mc 16,1-2). Lucas confirma: "No primeiro dia da semana, de manhã bem cedo" (Lc 24,1). João testemunha: "No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo, bem cedo, quando ainda estava escuro" (Jo 20,1). [9]

Quatro evangelistas. Quatro testemunhos. Todos convergem no mesmo ponto: o domingo é o dia da Ressurreição. Não por decreto humano. Não por conveniência administrativa. Mas pela própria ação de Deus, que escolheu o primeiro dia da semana para inaugurar a nova criação.

O sábado se encerra no silêncio do sepulcro. O domingo desponta com a luz da vida. Quem insiste em permanecer no sábado permanece junto ao túmulo fechado. Quem celebra o domingo participa do Ressuscitado.

O descanso é uma Pessoa

Jesus disse: "Vinde a Mim todos vós que estais cansados e carregados de fardos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o Meu jugo e aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Pois o Meu jugo é suave e o Meu fardo é leve." (Mt 11,28-30) [10]

Essas palavras ecoam como o coração da Nova Aliança. E nelas se revela o que o sábado sempre quis ser: não um dia, mas uma Pessoa. Não uma obrigação, mas um encontro. Não um peso, mas um alívio.

O cansaço a que Jesus se refere não é apenas físico. É espiritual. É o peso da Lei agravado pelas interpretações farisaicas, que haviam transformado o sábado em fardo e instrumento de condenação. Ao convidar os cansados e sobrecarregados, Jesus se apresenta como Aquele que cumpre e supera a Lei, oferecendo não um novo conjunto de prescrições, mas a Si mesmo como fonte de descanso.

Os termos gregos iluminam a cena. Praos (πραΰς) é manso. Tapeinos (ταπεινός) é humilde. Não é a mansidão de quem não tem força, mas de quem tem toda a força e a contém por amor. Não é a humildade de quem se diminui, mas de quem se abaixa para erguer o outro. O contraste com o jugo farisaico é total. Ali, imposição; aqui, doação. Ali, peso; aqui, leveza. Ali, lei externa; aqui, comunhão interior.

A Carta aos Hebreus traduz esse convite em linguagem teológica: "Resta, portanto, um sabbatismós para o povo de Deus" (Hb 4,9). [11] A palavra é rara. Aparece uma única vez em todo o Novo Testamento. Não se refere ao sétimo dia como fração semanal, mas a um repouso escatológico, uma participação no descanso do próprio Deus. É dom, não calendário. É estado de pertença ao Filho, não fuso horário.

A inversão adventista

E aqui se revela a gravidade da posição adventista. Ao insistir que o sábado continua como centro da economia da salvação, o adventismo coloca o sinal acima da realidade. É como abraçar a sombra projetada por alguém quando a pessoa amada está de pé diante de nós.

O Tratado de Teologia Adventista afirma que o sábado é "sinal perpétuo da fidelidade" e que sua rejeição corresponde à aceitação da "marca da besta". Afirma que Apocalipse 14,12 identifica o remanescente fiel com os guardiões do sábado. Determina que toda atividade deve cessar do pôr do sol de sexta ao pôr do sol de sábado como obediência absoluta.

Mas o que diz o Novo Testamento? Diz que o verdadeiro selo do cristão é o Espírito Santo: "fostes selados com o Espírito Santo da promessa" (Ef 1,13; 4,30). [12] A palavra grega para "selo" é sphragís (σφραγίς). É o selo do Espírito, não o selo do calendário. O critério de pertença a Cristo não é a guarda de um dia, mas a fé operante no amor (Gl 5,6).

Quando o adventismo institucional absolutiza o sábado, Cristo é reduzido a guardador de calendário. Sua vitória pascal se torna rodapé de uma tábua antiga. Sua Ressurreição deixa de ser o ponto de recriação do cosmos para se tornar, na prática, secundária. E o sinal usurpa o lugar do Salvador.

A consequência é dramática. Sem Cristo como plenitude, o sábado se torna prisão. Sem a Nova Criação, tudo permanece incompleto. Sem a Ressurreição no primeiro dia da semana, não há oitavo dia, não há recriação do tempo. O memorial da criação antiga cede lugar, na fé católica, ao memorial da nova criação. A sombra do descanso temporal é superada pela luz do descanso eterno em Cristo.

Foi para evitar essa tragédia que Paulo afirmou aos Colossenses: o sábado era sombra, mas a realidade, o corpo, a substância, a vida, é Cristo (Cl 2,16-17).

Conclusão: a pergunta certa

A pergunta que o adventismo faz é: "Qual dia devemos guardar?" A pergunta que o Evangelho faz é outra: "Em quem descansamos?"

Se a resposta é "num dia", estamos na Antiga Aliança. Se a resposta é "em Cristo", estamos na Nova. E a Nova não anula a Antiga; ela a leva à plenitude. O domingo não é mera troca de dia. É a irrupção sacramental da Nova Criação no ritmo do tempo. É a kyriakē hēmera, o Dia do Senhor, o dia em que a sombra cede lugar ao Corpo.

Quem é Jesus? É o Senhor do sábado. E o Senhor do sábado nos convida, não a guardar um dia, mas a encontrar Nele o descanso que nenhum dia, por mais santo que seja, pode oferecer.

No próximo estudo, examinaremos os cinco textos do apóstolo Paulo que o adventismo não consegue responder, e veremos como a liberdade cristã diante do calendário não é licença, mas filiação.

Fontes e Referências

  1. Lucas 6,1-5. Jesus declara-se Kyrios toû sabbátou (Κύριος τοῦ σαββάτου), "Senhor do sábado". Cf. paralelos em Mt 12,1-8 e Mc 2,23-28.
  2. O termo Kyrios (Κύριος) é usado na Septuaginta como tradução do tetragrama YHWH (cf. Êx 3,14-15). No NT, é título cristológico central: Rm 10,9; Fl 2,11; Jo 20,28. Cf. BDAG, s.v. κύριος.
  3. 1 Samuel 21,1-6. Davi come os pães da proposição no tabernáculo em Nob. Jesus cita o episódio em Lc 6,3-4 para demonstrar que a necessidade humana prevalece sobre a letra do preceito ritual.
  4. Marcos 2,27. A declaração "o sábado foi feito para o homem" (tò sábbaton dià tòn ánthrōpon egéneto) estabelece a subordinação do preceito à pessoa.
  5. João 5,16-18. O Pai “trabalha até agora” (hēōs árti ergázetai). A sustentação contínua da criação implica que Deus não observa o sábado israelita. Cf. STh I, q. 104, a. 1 (conservação divina contínua); CIC §301.
  6. Mateus 24,20. Contexto: destruição de Jerusalém em 70 d.C., não segunda vinda. Portas da cidade fechadas no sábado. Cf. Mt 23,37-24,34; EUSÉBIO DE CESAREIA, História Eclesiástica, III, 5 (fuga dos cristãos para Pela).
  7. IGREJA ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA. Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia. 2. ed. Tatuí: CPB, 2011, cap. 14 (O Sábado), pp. 549-597. Cf. Mt 19,16-21 e Lc 18,18-22, onde Jesus enumera mandamentos para a vida eterna e omite o sábado.
  8. João 5,17. Jesus afirma que o Pai "trabalha até agora" (héōs árti ergázetai), revelando que o repouso divino da criação não é inatividade, mas plenitude operante.
  9. A Ressurreição no primeiro dia da semana é atestada por todos os quatro evangelistas: Mt 28,1; Mc 16,1-2; Lc 24,1; Jo 20,1. A expressão grega é miā̂ tōn sabbátōn (μιᾷ τῶν σαββάτων), "o primeiro da semana".
  10. Mateus 11,28-30. O convite de Jesus ao descanso (anápausis, ἀνάπαυσις) é pessoal, não calendárico. Os termos praǔs (πραΰ́ς, "manso") e tapeinós (ταπεινός, "humilde") descrevem a autoridade que se oferece por amor.
  11. Hebreus 4,9. O sabbatismós (σαββατισμός) é hápax legomenon no NT: aparece uma única vez. Designa não um dia semanal, mas a participação escatológica no repouso de Deus.
  12. Efésios 1,13 e 4,30. O selo (sphragís, σφραγίς) do cristão é o Espírito Santo, não um dia do calendário. Cf. 2Cor 1,22. ➜ Próximo estudo: Os Cinco Textos sem RespostaEstudo anterior: O sábado que ninguém guardouVoltar ao Percurso Básico

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