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História · 18 minutos

O Nome dos Dias: quando o sábado virou sábado

Calendários, planetas, deuses e a ironia que o adventismo não percebe

"Não há coisa nova debaixo do sol."

— Eclesiastes 1,9

Um dia chamado Saturno

Há uma ironia que o adventismo nunca enfrentou com a seriedade que ela merece. O dia que os adventistas guardam como selo de Deus, como marca escatológica de fidelidade, como linha divisória entre os salvos e os condenados, carrega no calendário que eles próprios utilizam o nome de um deus pagão.

Em inglês, Saturday vem de Saturni Dies, o dia de Saturno, divindade romana associada à agricultura, ao tempo e, na mitologia posterior, a um reinado sombrio. O nome não é acidental; é herança direta da semana planetária romana, que associava cada dia a um astro e ao deus correspondente. Quando o adventista de língua inglesa diz "I keep Saturday holy", está dizendo, etimologicamente, "eu santifico o dia de Saturno". Quando o adventista brasileiro diz "eu guardo o sábado", está usando uma palavra que, embora derivada do hebraico shabbat, chegou ao português pelo latim sabbatum, que por sua vez foi inserido no calendário eclesiástico cristão. Ou seja: o próprio nome que o adventista usa para designar o seu dia sagrado existe nessa forma porque a Igreja Católica organizou a semana.

Pois se isso não é ironia suficiente, há uma maior. O calendário pelo qual os adventistas determinam que dia é "sábado" foi instituído em 1582 pelo Papa Gregório XIII. Sem o calendário gregoriano, não há como saber com certeza se o sábado de hoje corresponde ao sétimo dia da semana original. O adventismo depende, literalmente, de um papa para guardar o seu sábado. É uma dependência que a retórica anti-romana jamais menciona nos sermões.

Quando a semana tinha oito dias

Para entender como chegamos à semana de sete dias com os nomes que usamos, é preciso recuar no tempo e percorrer a história dos calendários com honestidade. A semana de sete dias, para nós cristãos e antes de nós para os judeus, tem raiz na revelação bíblica: seis dias de obra, um de descanso. Mas ela não foi a única forma de organizar o tempo na antiguidade.

Os primeiros calendários nasceram na Mesopotâmia e no Egito [1], praticamente no mesmo berço em que surgiram a escrita e a matemática. O calendário hebraico baseou-se no modelo mesopotâmico, com doze meses lunares de 29 ou 30 dias. Mas a forma da semana variou enormemente entre os povos.

Os babilônios organizavam-se em ciclos de sete dias vinculados às fases da Lua, cujo ciclo completo arredondavam para 28 dias. Mas a conta não era exata: às vezes, três semanas de sete dias eram seguidas de uma com oito ou nove, para calibrar o calendário. O sétimo dia era tido como sagrado e azarado ao mesmo tempo, crendo-se que certas atividades corriqueiras, se executadas nesse dia, trariam má sorte. Nada disso tem relação com a teologia bíblica do shabbat.

No Antigo Egito, a semana podia ter nove ou dez dias. Na Roma antiga, a semana tinha oito dias, e o oitavo era chamado nundinae, o dia de mercado. Essa divisão não era uniforme; os dois sistemas, o de oito e o de sete, conviveram por um tempo, gerando conflitos práticos até que a semana de sete dias se consolidou definitivamente no Império.

A experiência moderna confirma que a semana de sete dias resiste a qualquer tentativa de substituição. Em 1793, a França revolucionária adotou uma semana de dez dias; a experiência durou nove anos e foi abandonada quando a Igreja Católica se restabeleceu no país. A União Soviética tentou semanas de cinco e seis dias entre 1929 e 1940; o fracasso foi igualmente retumbante. O ritmo de sete dias, inscrito na criação e confirmado pela prática de milênios, não se deixa revogar por decreto humano.

Dos planetas aos deuses

Pois de onde vieram os nomes dos dias? Sob o Império Romano, consolidou-se a semana de sete dias associada aos sete astros então conhecidos e aos deuses correspondentes. A ordem era fixa: Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus, Saturno. De cada astro nasceu um nome.

O primeiro dia era Solis Dies [2], o dia do Sol. O segundo, Lunae Dies, o dia da Lua. O terceiro, Martis Dies, o dia de Marte, deus da guerra. O quarto, Mercurii Dies, o dia de Mercúrio, mensageiro dos deuses. O quinto, Iovis Dies, o dia de Júpiter, o pai dos deuses. O sexto, Veneris Dies, o dia de Vênus, deusa do amor. E o sétimo, Saturni Dies, o dia de Saturno.

Nas línguas anglo-saxônicas, os deuses romanos foram substituídos por deuses nórdicos, mas a estrutura permaneceu: Sunday (dia do Sol), Monday (dia da Lua), Tuesday (dia de Tiw/Tyr, deus da guerra nórdico, equivalente de Marte), Wednesday (dia de Woden/Odin), Thursday (dia de Thor), Friday (dia de Freyja/Frigg). E Saturday permaneceu como estava [3]: o dia de Saturno, sem substituto nórdico.

Eis o dado que merece meditação: os nomes dos dias que o mundo anglófono usa, e que os adventistas anglófonos usam, são inteiramente pagãos. Nenhum deles foi "instituído por Deus". São convenções humanas, produtos de astrologia popular e mitologia greco-romana. O adventista que guarda Saturday como dia sagrado está usando uma etiqueta pagã colada sobre um conceito bíblico, sem que a etiqueta altere o conceito. Pois é exatamente isso que a Igreja ensina sobre o domingo: o conceito (consagrar um dia a Deus) permanece; a etiqueta muda, porque a história da salvação avançou.

A exceção portuguesa

A língua portuguesa é única entre as neolatinas, e a razão é eclesiástica. Enquanto o espanhol conserva lunes, martes, miércoles, jueves, viernes (Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus), e o italiano e o francês fazem o mesmo, o português substituiu integralmente a nomenclatura pagã por termos cristãos.

Devemos essa mudança a São Martinho de Dume, arcebispo e missionário do século VI, conversor dos suevos na Península Ibérica. A reforma foi oficializada no Primeiro Concílio de Braga, em 561 [4], convocado pelo rei suevo Ariamiro com apoio do Papa João III. A decisão foi clara: é indigno que cristãos continuem chamando os dias pelos nomes de divindades pagãs. A nova nomenclatura eclesiástica substituiu os deuses por feriae (dias livres) e consagrou o primeiro dia como Dominica Dies, o Dia do Senhor.

Daí surgem os nomes que usamos até hoje: domingo (Dominica Dies, Dia do Senhor), segunda-feira (Feria Secunda, segundo dia livre), terça-feira (Feria Tertia), quarta-feira (Feria Quarta), quinta-feira (Feria Quinta), sexta-feira (Feria Sexta) e sábado (Sabbatum, mantendo a raiz hebraica).

A ironia se aprofunda: o único dia da semana em português que conserva um nome de origem bíblica, e não eclesiástica latina, é justamente o sábado. E ele o conserva porque a Igreja, ao organizar a semana, decidiu manter Sabbatum como designação do sétimo dia, honrando a raiz hebraica. O adventismo brasileiro, ao usar a palavra "sábado", está usando um nome que a Igreja Católica preservou para ele.

A nomenclatura hebraica e o dado que muda tudo

No hebraico, a semana é contada de modo radicalmente diferente. Não há nomes de deuses nem de planetas. Os dias são designados por ordinais: Yom Rishon [5] (primeiro dia, domingo), Yom Sheni (segundo dia, segunda), Yom Shlishi (terceiro), Yom Revi'i (quarto), Yom Chamishi (quinto), Yom Shishi (sexto). O único dia que recebe nome próprio é o sétimo: Shabat.

Esse dado é significativo. O nome Shabbat não existe desde a criação como rótulo de um dia da semana. Em Gênesis 2,2-3, encontramos apenas o verbo shavath descrevendo o cessar divino, não há aí substantivo nominando o dia. A primeira ocorrência de shabbat como nome próprio de um dia da semana aparece em Êxodo 16,23, no episódio do maná, dois mil e quinhentos anos depois da criação: shabbaton shabbat-qodesh la-YHWH ('sábado de descanso, santidade ao Senhor'). Primeiro veio o shabbat como descanso; depois veio o shabbat como nome de dia. A função precedeu o rótulo.

Ora, se o que importa é a função (cessar e consagrar a Deus), e não o rótulo (o nome "sábado"), então a transição para o domingo não é traição: é desenvolvimento. O princípio permanece; a moldura muda porque a história da salvação mudou. Cristo morreu na sexta (sexto dia), repousou no sepulcro no sábado (sétimo dia), e ressuscitou no domingo (primeiro dia, oitavo dia). A semana da redenção recapitula a semana da criação, mas a ultrapassa: o sétimo dia encerra a antiga ordem; o primeiro dia inaugura a nova.

O calendário gregoriano: a dependência que ninguém menciona

Chegamos à ironia maior, aquela que deveria incomodar profundamente qualquer adventista que pense com rigor. O calendário pelo qual o mundo inteiro, incluindo a Igreja Adventista do Sétimo Dia, determina que dia da semana é hoje foi instituído pelo Papa Gregório XIII em 1582 [6]. A reforma gregoriana corrigiu o calendário juliano (de Júlio César, 45 a.C.), ajustando a contagem dos anos bissextos para manter o equinócio de primavera alinhado com a Páscoa.

Quando a reforma entrou em vigor, dez dias foram suprimidos do calendário: na Itália, Portugal e Espanha, o dia 4 de outubro de 1582 foi seguido imediatamente pelo dia 15 de outubro. Outros países adotaram a mudança em datas diferentes: a Inglaterra só o fez em 1752. Durante séculos, diferentes regiões da cristandade estavam em dias diferentes da semana, dependendo de qual calendário seguiam.

A pergunta que se impõe é mais sutil do que à primeira vista parece. Os historiadores documentam que a reforma gregoriana não alterou a sequência semanal ao suprimir os dez dias de outubro de 1582, o ciclo dos sete dias foi conscientemente preservado. Mas essa preservação foi decisão papal. Se Gregório XIII tivesse escolhido suprimir onze dias em vez de dez, o ciclo semanal teria sido deslocado em um dia, e o 'sábado' moderno cairia em quinta ou sexta-feira no calendário antigo. Logo, a certeza adventista de que o sábado moderno corresponde ao sétimo dia original repousa, em última instância, sobre uma decisão consciente do papado de preservar a continuidade. O adventismo guarda o sábado, mas precisa do papa para saber qual dia é sábado. Esta dependência não está exposta na retórica anti-romana adventista. A resposta é: não pode, a não ser que confie na autoridade da tradição calendárica que a Igreja preservou. O adventismo precisa do papa para saber quando é sábado. É uma dependência que a retórica do "decreto dominical" e da "marca da besta" prefere ignorar.

O tempo consagrado, não o nome disputado

Pois toda essa jornada pelos calendários, nomes, deuses e reformas converge num ponto luminoso: o que santifica o dia não é o seu nome. Nunca foi. Não há magia na palavra "sábado", assim como não há paganismo na palavra "domingo". O que santifica é o ato de consagrar o tempo a Deus, de cessar a obra para entrar no repouso que Ele oferece.

A Igreja primitiva compreendeu isso com clareza límpida. Já no primeiro século, a Didaquê (c. 70-100 d.C.) instruía os cristãos: "Reuni-vos no Dia do Senhor para a fração do pão." Santo Inácio de Antioquia, escrevendo a caminho do martírio por volta de 107, declarava: "Não mais sabatizando, mas vivendo segundo o Dia do Senhor." São Justino Mártir, em 155, explicava aos pagãos: "Reunimo-nos todos no dia do Sol, porque é o primeiro dia em que Deus criou o mundo e nesse mesmo dia Jesus Cristo ressuscitou."

Nenhum desses testemunhos se preocupa com o nome do dia. Todos se preocupam com a realidade que o dia celebra: a Ressurreição de Cristo, que inaugurou a nova criação. O nome é convenção; a realidade é teológica. O shavath de Gênesis 2 encontra a sua plenitude não no sábado de Saturno, mas no domingo do Senhor. Não no repouso do sepulcro, mas na alvorada da vida eterna.

Do Shabbat ao Domingo, não se trata de capricho nominal, mas de economia da salvação: o Deus que faz e depois cessa é o mesmo que, em Jesus, morre no sábado e ressuscita no primeiro dia, abrindo para nós o oitavo dia, o descanso sem fim.

Fontes e Referências

  1. Cf. RICHARDS, E.G. Mapping Time: The Calendar and Its History. Oxford: OUP, 1998. Calendários babilônico, egípcio e romano pré-juliano.
  2. Semana planetária romana: Solis Dies, Lunae Dies, Martis Dies, Mercurii Dies, Iovis Dies, Veneris Dies, Saturni Dies. Séc. I d.C.
  3. Tradição anglo-saxônica: Tiw/Tyr (Tuesday), Woden/Odin (Wednesday), Thor (Thursday), Freyja (Friday). Saturday conservou Saturno.
  4. SÃO MARTINHO DE DUME (c. 520-580). Primeiro Concílio de Braga (561). Cf. De correctione rusticorum (c. 574).
  5. Nomenclatura hebraica: Yom Rishon (1º), Yom Sheni (2º), ..., Shabbat (7º). Cf. Mishná, Tamid 7,4.
  6. PAPA GREGÓRIO XIII. Bula Inter gravissimas (24/02/1582). Dez dias suprimidos: 4/10 → 15/10/1582. ➜ Próximo estudo: O Segundo Adão e a Nova CriaçãoEstudo anterior: Do Asah ao Shavath: o ritmo divino da criaçãoVoltar ao Percurso Intermediário

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